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Cantes

02/09/2005

 

O novo disco de Francisco Naia

Francisco Naia, um dos mais intervenientes e talentosos cantores populares e compositores da geração pós-25 de Abril, acaba de lançar "Cantes d`além Tejo", um hino ao homem alentejano, à imensidão da planície, ao desejo de regresso de todos aqueles que partiram, o reencontro com o sol do entardecer e com as noites de luar imenso.
Nascido em Beja no seio de uma família de músicos e de cantadores, Francisco Naia sonhou ainda na adolescência ir estudar canto para Itália e pisar um dia grandes palcos operáticos como tenor. O sonho não chegou a realizar-se, mas se o "belo canto" perdeu uma voz de eleição foi o "belo cante" alentejano quem ficou a ganhar, ao ter como um dos seus expoentes máximos este intérprete que faz jus à estrofe de Eduardo Olímpio: "Sou alentejano, poeta e cantor/Filho dos montados, neto de uma flor.../nasci entre as dobras de ventos e trigos; /Nunca traí os amigos!".

Com que idade e porque motivo deixou o Alentejo?
"Abalei do Alentejo, olhei para trás chorando…"
Tinha 16 anos, quando o comboio saiu de Aljustrel para me levar até às terras da Funcheira – esse importante entroncamento ferroviário, para onde o meu pai, por força da sua profissão, fora nomeado chefe principal da estação. Inicialmente estava prevista a sua colocação, na mesma função, em Beja (cidade onde foi registado o meu nascimento com o nome de Francisco Manuel Naia Tonicher e onde vivia o grosso dos meus parentes, quer do lado materno quer do lado paterno). No entanto, por opção, atendendo a que eu tinha de prosseguir os meus estudos, e ao facto do meu pai estar perto de poder ser ali colocado como inspector, fui para o Barreiro, terra para onde iríamos morar definitivamente, dois anos mais tarde, tendo ficado inicialmente com uma irmã casada, violinista e modista, que ali residia.

Sabemos que é primo da Tonicha, uma figura de referência na música ligeira portuguesa, e que faz parte de uma família de afinados músicos e cantadores. Que importância teve esse facto na sua opção de trovador que, pelo timbre e força vocal, há quem o diga, poderia ter sido um extraordinário tenor ou barítono?
A minha opção inicial era ser tenor. Tive escola nesse sentido. Cheguei a sonhar poder ir estudar canto para Itália; vir a cantar um dia Ópera no São Carlos, em Lisboa e pelo mundo. Sonhei! No entanto as dificuldades quer de carácter económico quer estratégico (estar no Alentejo; filho de uma família de seis filhos e filhas; etc.) não me permitiram seguir por essa via. Restava-me passar pelo amadorismo e dar utilidade à minha paixão pelo canto. Compreendi e esqueci.
O meu pai, para além de ser chefe de estação, também era maestro e compositor. Nasci no meio de músicos e cantores. De facto os meus irmãos mais velhos aprenderam todos a tocar um instrumento: viola, banjo, violino, flauta, flautim, acordeão, contrabaixo e afins. O meu pai, Feliciano Tonicher, formou com eles um grupo, que ficou conhecido pela "Orquestra Tonicher". Tocavam, como amadores, música variada e popular.
Faziam concertos onde quer que fossem solicitados. Tudo isto me influenciou. Também estudei solfejo e tive aulas de piano. Aprendi guitarra e resolvi ser cantor.
Dos meus irmãos distinguiram-se a minha irmã Elisete Tonicher, como promissora cantora; a minha irmã Mariana, como violinista de mérito e o meu irmão Feliciano, músico muito activo que aos cinco anos já tocava flautim numa banda de música.
A Elisete frequentou o Centro de Preparação de Artistas da Rádio, da Emissora Nacional, na altura, tendo como colegas a Simone de Oliveira, o Artur Garcia; a Maria Marise; etc. Já como profissional participou em numerosos espectáculos e programas daquela estação emissora. Passou a ser conhecida pela "Tonicha". Foi, de facto a primeira Tonicha da rádio.
Nesta altura, a minha priminha de Beja, com 16 anos, que apreciava muito o trabalho da prima Elisete, foi admitida no Centro de Preparação e veio, para frequentar as aulas em Lisboa, para casa dos meus pais, no Barreiro. Ficou logo sendo a Tonicha (eu, quando comecei a gravar, como já havia um nome Tonicha, combinei com ela e com o marido, o João Viegas, ficar a ser referenciado por Francisco Naia – ramo da minha família, parte de mãe, muito conhecido em Beja)..
Depois, com muito mérito e grande capacidade de trabalho, Tonicha tornou-se no grande valor que é, conquistando toda a gente e, em particular, o coração de todos os alentejanos.

Lançou agora um novo disco a que deu o sugestivo título de "Cantes d"além Tejo". Pode falar-nos nesse trabalho e o que representa ele nesta fase da sua carreira de cantor(de intervenção social e de intérprete de belos hinos alentejanos)?
"Cantes d"além Tejo", são o percurso inverso, o desejo de regresso, a saudade do tempo, dos tempos em que os poetas choravam dolorosamente o Alentejo. É o amor e o amor à terra. A recordação da luta, o cante na imensidão deste Alentejo de encantar para sempre. É um hino ao homem Alentejano.
Estes temas falam de cada um de nós nas suas vivências e procuram fazer a ponte que unirá os que cá estão, àqueles que vivem na cintura industrial, na Grande Lisboa e não deixaram desvanecer-se o encanto que os possui e que, até, transmitem aos seus descendentes de várias gerações, os quais vivem o Alentejo como se, lá tivessem nascido e de lá nunca tivessem saído.
Este meu trabalho – que contou com o apoio da Câmara Municipal de Almada e de alguns amigos – foi uma edição de autor e de uma pequena editora chamada, "O Homem da Gaita". Representa para mim o regresso à luta pela música portuguesa; a prova de que estamos bem vivos e atentos, na defesa da nossa cultura musical e dos nossos valores tradicionais. E somos muitos. As editoras não apostam nos nossos trabalhos, não investem. Porém, "Cantes d"além Tejo" andam de mão em mão e, não sendo comercializados em todo o lado, são-no nas FNACs, em livrarias, pequenos distribuidores, em espectáculos, nas escolas, pelos amigos ou através do mail fnaia@netcabo.pt
"Cantes d"além Tejo", recentemente lançado ao público (fiz vários recitais de lançamento), num espectáculo com o mesmo título genérico, tem temas de minha autoria, música poemas e adaptações e, também músicas e adaptações da autoria do João Pimentel que , para além disso, compôs excelentes arranjos. O CD contou com a colaboração dos músicos: João Pimentel, guitarra; Rui Curto, acordeão; Mário Gramaço, saxofone e flauta; João Penedo, contrabaixo e de Quine, percussão. "Cantes d"além Tejo" tem tido muito boa receptividade, tanto na rádio oficial como em alguma imprensa, rádios locais e em recitais que por aí vamos fazendo. Estamos a entrar na terceira edição (3000 unidades) e continuamos.
Para mim este CD representa o regresso à composição, à escrita e à criatividade total. Já agora informo estar em fase de maquetes e orquestração de um novo trabalho, com o título genérico de "Não deixes de me encantar", Será como que a segunda parte deste projecto, ou seja, um novo trabalho, dedicado às gerações pós-25 de Abril; falando dos sonhos, da Liberdade, dos amores, na transição, das loucuras e da felicidade de se ser livre em pleno.
 
BIOGRAFIA

 
Francisco Naia nasceu em Beja no dia 21 de Dezembro de 1940. mas a sua infância e adolescência foi quase toda passada por terras de Aljustrel e da Funcheira. Licenciado em Filologia Germânica é professor do Ensino Secundário na Escola Cacilhas-Tejo, em Almada, cidade onde reside há 18 anos. Cantor, poeta e compositor com vasta obra editada, gravou o seu primeiro disco Barco Novo, em 1969, logo proibido pela Censura. Passou pelo programa televisivo Zip Zip, seguindo-se espectáculos em colectividades, escolas, universidades e outros auditórios, na companhia de intérpretes como Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Carlos Alberto Moniz, José Jorge Letria, Vieira da Silva ou José Fanha. Foi sócio fundador da Associação José Afonso, da Associação Alma Alentejana e do CEDA (Centro de Estudos Documentais do Alentejo).

TEXTO | Manuel Geraldo FOTOS | Pedro Soares

02/09/2005 - 13h16