O
novo disco de Francisco Naia
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Francisco
Naia, um dos mais intervenientes e talentosos cantores populares
e compositores da geração pós-25 de Abril, acaba de lançar
"Cantes d`além Tejo", um hino ao homem alentejano, à
imensidão da planície, ao desejo de regresso de todos aqueles
que partiram, o reencontro com o sol do entardecer e com as
noites de luar imenso.
Nascido em Beja no seio de uma família de
músicos e de cantadores, Francisco Naia sonhou ainda na adolescência
ir estudar canto para Itália e pisar um dia grandes palcos operáticos
como tenor. O sonho não chegou a realizar-se, mas se o
"belo canto" perdeu uma voz de eleição foi o
"belo cante" alentejano quem ficou a ganhar, ao ter
como um dos seus expoentes máximos este intérprete que faz jus
à estrofe de Eduardo Olímpio: "Sou alentejano, poeta e
cantor/Filho dos montados, neto de uma flor.../nasci entre as
dobras de ventos e trigos; /Nunca traí os amigos!".
Com que idade e
porque motivo deixou o Alentejo?
"Abalei do Alentejo, olhei
para trás chorando…"
Tinha 16 anos, quando o comboio
saiu de Aljustrel para me levar até às terras da Funcheira –
esse importante entroncamento ferroviário, para onde o meu pai,
por força da sua profissão, fora nomeado chefe principal da
estação. Inicialmente estava prevista a sua colocação, na
mesma função, em Beja (cidade onde foi registado o meu
nascimento com o nome de Francisco Manuel Naia Tonicher e onde
vivia o grosso dos meus parentes, quer do lado materno quer do
lado paterno). No entanto, por opção, atendendo a que eu tinha
de prosseguir os meus estudos, e ao facto do meu pai estar perto
de poder ser ali colocado como inspector, fui para o Barreiro,
terra para onde iríamos morar definitivamente, dois anos mais
tarde, tendo ficado inicialmente com uma irmã casada,
violinista e modista, que ali residia.
Sabemos que é primo
da Tonicha, uma figura de referência na música ligeira
portuguesa, e que faz parte de uma família de afinados músicos
e cantadores. Que importância teve esse facto na sua opção de
trovador que, pelo timbre e força vocal, há quem o diga,
poderia ter sido um extraordinário tenor ou barítono?
A minha opção inicial era ser
tenor. Tive escola nesse sentido. Cheguei a sonhar poder ir
estudar canto para Itália; vir a cantar um dia Ópera no São
Carlos, em Lisboa e pelo mundo. Sonhei! No entanto as
dificuldades quer de carácter económico quer estratégico
(estar no Alentejo; filho de uma família de seis filhos e
filhas; etc.) não me permitiram seguir por essa via. Restava-me
passar pelo amadorismo e dar utilidade à minha paixão pelo
canto. Compreendi e esqueci.
O meu pai, para além de ser
chefe de estação, também era maestro e compositor. Nasci no
meio de músicos e cantores. De facto os meus irmãos mais
velhos aprenderam todos a tocar um instrumento: viola, banjo,
violino, flauta, flautim, acordeão, contrabaixo e afins. O meu
pai, Feliciano Tonicher, formou com eles um grupo, que ficou
conhecido pela "Orquestra Tonicher". Tocavam, como
amadores, música variada e popular.
Faziam concertos onde quer que
fossem solicitados. Tudo isto me influenciou. Também estudei
solfejo e tive aulas de piano. Aprendi guitarra e resolvi ser
cantor.
Dos meus irmãos distinguiram-se
a minha irmã Elisete Tonicher, como promissora cantora; a minha
irmã Mariana, como violinista de mérito e o meu irmão
Feliciano, músico muito activo que aos cinco anos já tocava
flautim numa banda de música.
A Elisete frequentou o Centro de
Preparação de Artistas da Rádio, da Emissora Nacional, na
altura, tendo como colegas a Simone de Oliveira, o Artur Garcia;
a Maria Marise; etc. Já como profissional participou em
numerosos espectáculos e programas daquela estação emissora.
Passou a ser conhecida pela "Tonicha". Foi, de facto a
primeira Tonicha da rádio.
Nesta altura, a minha priminha de
Beja, com 16 anos, que apreciava muito o trabalho da prima
Elisete, foi admitida no Centro de Preparação e veio, para
frequentar as aulas em Lisboa, para casa dos meus pais, no
Barreiro. Ficou logo sendo a Tonicha (eu, quando comecei a
gravar, como já havia um nome Tonicha, combinei com ela e com o
marido, o João Viegas, ficar a ser referenciado por Francisco
Naia – ramo da minha família, parte de mãe, muito conhecido
em Beja)..
Depois, com muito mérito e
grande capacidade de trabalho, Tonicha tornou-se no grande valor
que é, conquistando toda a gente e, em particular, o coração
de todos os alentejanos.
Lançou agora um novo
disco a que deu o sugestivo título de "Cantes d"além
Tejo". Pode falar-nos nesse trabalho e o que representa ele
nesta fase da sua carreira de cantor(de intervenção social e
de intérprete de belos hinos alentejanos)?
"Cantes d"além
Tejo", são o percurso inverso, o desejo de regresso, a
saudade do tempo, dos tempos em que os poetas choravam
dolorosamente o Alentejo. É o amor e o amor à terra. A recordação
da luta, o cante na imensidão deste Alentejo de encantar para
sempre. É um hino ao homem Alentejano.
Estes temas falam de cada um de nós
nas suas vivências e procuram fazer a ponte que unirá os que cá
estão, àqueles que vivem na cintura industrial, na Grande
Lisboa e não deixaram desvanecer-se o encanto que os possui e
que, até, transmitem aos seus descendentes de várias gerações,
os quais vivem o Alentejo como se, lá tivessem nascido e de lá
nunca tivessem saído.
Este meu trabalho – que contou
com o apoio da Câmara Municipal de Almada e de alguns amigos
– foi uma edição de autor e de uma pequena editora chamada,
"O Homem da Gaita". Representa para mim o regresso à
luta pela música portuguesa; a prova de que estamos bem vivos e
atentos, na defesa da nossa cultura musical e dos nossos valores
tradicionais. E somos muitos. As editoras não apostam nos
nossos trabalhos, não investem. Porém, "Cantes d"além
Tejo" andam de mão em mão e, não sendo comercializados
em todo o lado, são-no nas FNACs, em livrarias, pequenos
distribuidores, em espectáculos, nas escolas, pelos amigos ou
através do mail fnaia@netcabo.pt
"Cantes d"além
Tejo", recentemente lançado ao público (fiz vários
recitais de lançamento), num espectáculo com o mesmo título
genérico, tem temas de minha autoria, música poemas e adaptações
e, também músicas e adaptações da autoria do João Pimentel
que , para além disso, compôs excelentes arranjos. O CD contou
com a colaboração dos músicos: João Pimentel, guitarra; Rui
Curto, acordeão; Mário Gramaço, saxofone e flauta; João
Penedo, contrabaixo e de Quine, percussão. "Cantes d"além
Tejo" tem tido muito boa receptividade, tanto na rádio
oficial como em alguma imprensa, rádios locais e em recitais
que por aí vamos fazendo. Estamos a entrar na terceira edição
(3000 unidades) e continuamos.
Para mim este CD representa o
regresso à composição, à escrita e à criatividade total. Já
agora informo estar em fase de maquetes e orquestração de um
novo trabalho, com o título genérico de "Não deixes de
me encantar", Será como que a segunda parte deste
projecto, ou seja, um novo trabalho, dedicado às gerações pós-25
de Abril; falando dos sonhos, da Liberdade, dos amores, na
transição, das loucuras e da felicidade de se ser livre em
pleno.
BIOGRAFIA
Francisco Naia nasceu em Beja no
dia 21 de Dezembro de 1940. mas a sua infância e adolescência
foi quase toda passada por terras de Aljustrel e da Funcheira.
Licenciado em Filologia Germânica é professor do Ensino Secundário
na Escola Cacilhas-Tejo, em Almada, cidade onde reside há 18
anos. Cantor, poeta e compositor com vasta obra editada, gravou
o seu primeiro disco Barco Novo, em 1969, logo proibido pela
Censura. Passou pelo programa televisivo Zip Zip, seguindo-se
espectáculos em colectividades, escolas, universidades e outros
auditórios, na companhia de intérpretes como Zeca Afonso,
Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire,
Carlos Alberto Moniz, José Jorge Letria, Vieira da Silva ou José
Fanha. Foi sócio fundador da Associação José Afonso, da
Associação Alma Alentejana e do CEDA (Centro de Estudos
Documentais do Alentejo).
TEXTO | Manuel Geraldo FOTOS |
Pedro Soares
02/09/2005
- 13h16